Há dez anos, Diógenes Quaresma recebeu um novo coração em Fortaleza depois de enfrentar um longo período de problemas de saúde. Desde então, a vida ganhou novos capítulos, com a recuperação, a formação de uma família e a convivência com quem tomou a decisão de doar os órgãos de um familiar.
Aos 47 anos, Diógenes precisou recomeçar a rotina depois de sofrer um infarto e um AVC. Os problemas levaram à descoberta de que o coração estava comprometido. Foram nove anos de tratamento até que, em 2016, o quadro se agravou e ele entrou na fila para receber um transplante.
A espera foi marcada por quatro tentativas até que apareceu um órgão compatível. A data que ficou registrada na memória foi 24 de agosto, quando finalmente recebeu a notícia de que o procedimento poderia ser realizado.
Diógenes Quaresma, aposentado, lembra daquele momento: “No quarto coração, no dia 24 de agosto, a bênção chegou. E foi um dos melhores choros da minha vida, de alegria”, disse ele, ao falar com a equipe de reportagem da TV Cidade Fortaleza.
Diógenes recebe o coração após quatro tentativas
O transplante marcou uma mudança na trajetória de Diógenes, mas a recuperação não ocorreu sem dificuldades. Depois da cirurgia, ele enfrentou alguns desafios, incluindo um episódio de rejeição.
Com o tratamento e a recuperação, porém, voltou a fazer planos e a viver situações que antes pareciam distantes. Entre os novos capítulos da vida estão os momentos ao lado da família e a convivência com os netos.
O coração recebido também representa uma história que envolve outras pessoas. O doador teve seis órgãos ou estruturas doados, entre eles as duas córneas, os dois rins, o fígado e o coração que foi transplantado em Diógenes.
“O meu doador, ele salvou seis pessoas. Ele doou as duas córneas. Os dois rins, o fígado e esse coração que bate aqui há 10 anos”, conta Diógenes.
Família do doador mantém amizade com Diógenes
Depois do transplante, a família do doador procurou Diógenes. O contato, que poderia ter se limitado ao momento relacionado à doação, acabou dando origem a uma relação de amizade entre as duas famílias.
A proximidade também se tornou uma forma de preservar a memória do doador e de reconhecer a decisão tomada pela família em um momento de despedida.
Ao lado da mãe, Vanda Lima, Diógenes faz questão de agradecer aos familiares do doador e falar sobre a importância de permitir que outras pessoas tenham a oportunidade de receber um órgão.
Vanda acompanhou o filho durante o período de tratamento, esperando pelo transplante e pela recuperação. Hoje, ao vê-lo seguir a vida junto da família, ela associa a mudança na trajetória do filho à decisão tomada pelos familiares do doador.
Vanda Lima, mãe de Diógenes, afirma: “Pra mim foi a coisa mais alegre do mundo que eu tive, né? Ver ele renascer. E agradecer a família, que foi muito maravilhosa. Fez esse ato de caridade que nem todo mundo tem o coração de fazer.”
História incentiva doação de órgãos
A experiência de Diógenes passou a ser usada também para incentivar a conversa sobre doação de órgãos. Dez anos depois de receber o transplante de coração, ele compartilha a própria história como forma de estimular outras pessoas a considerarem a possibilidade de doar.
A mensagem também está ligada à campanha Maria Sofia, do Grupo Cidade de Comunicação, que busca conscientizar e incentivar a doação de órgãos. A iniciativa procura ampliar o debate sobre o tema e mostrar como a decisão de uma família pode interferir na história de pessoas que aguardam por um transplante.
Para Diógenes, a espera fez parte de um período marcado por incertezas, mas a experiência também reforçou a importância de manter a esperança enquanto o órgão compatível não chegava.
“Quem tá internado, eu deixo a dica: não perca a sua fé, seja qual ela for, não interessa. Se pregue a Deus, à natureza, a quem você desejar, o que for de melhor pra sua vida, mas diga: meu milagre vai chegar.”
Doação de órgãos é tema de campanha no Ceará
A campanha Maria Sofia, do Grupo Cidade de Comunicação, trabalha a conscientização sobre a doação de órgãos e busca estimular o diálogo dentro das famílias. A proposta é mostrar a importância da decisão de doar e como esse gesto pode influenciar a vida de pessoas que aguardam por um transplante.
No Ceará, foram realizados 2.102 transplantes em 2025. O número superou os 2.060 procedimentos registrados no ano anterior.
No Brasil, mesmo que a pessoa tenha manifestado em vida a intenção de ser doadora, a autorização precisa ser dada pela família. Por isso, conversar sobre o assunto antes de uma situação de luto pode ajudar os parentes a conhecer a vontade do familiar.
Segundo Lucyara Catunda, integrante do Programa de Transplante Pulmonar do Hospital de Messejana, conversar previamente com os familiares sobre o desejo de ser doador pode facilitar todo o processo:
"Os principais responsáveis pela liberação do órgão na doação, quando o paciente está em morte encefálica, é a família. O familiar mais próximo. Então, ele sabendo que você já é doador, facilita esse processo da doação, que então acontece de modo mais rápido e menos doloroso. Porque a gente sabe que é muito doloroso. Mas já sabendo, é importante essa conscientização e sensibilização da população."




